Cidadãos do Infinito




Para ler e meditar
  • Voltar





07/07/2021
Como progredir no caminho da santidade?
“O Reino dos céus é arrebatado à força”, diz o Evangelho, “e são os violentos que o conquistam”. Não existe outro caminho. Por isso, quem deseja progredir na santidade não pode deixar de rezar nunca, “aconteça o que acontecer, sofra-se o que se sofrer, murmure quem murmurar, mesmo que não se tenham forças para prosseguir, mesmo que se morra no caminho ou não se suportem os padecimentos que nele há, ainda que o mundo venha abaixo”.


Antes de qualquer coisa, na vida espiritual, é preciso estar em estado de graça, situação que corresponde ao que Santa Teresa chama de Primeiras Moradasonde as almas, embora disponham da assistência divina, ainda se veem embaraçadas pelos sentidos e paixões da vida pregressa, que as arrastam para novas e sucessivas quedas. Assim Santa Teresa as descreve: “Nas primeiras salas ainda se trata de pessoas absorvidas pelo mundo, engolfadas nos contentamentos, desvanecidas com as honras e pretensões mundanas” (Primeiras Moradas, 12). A alma nesse estado ainda não ama. Por isso, Santa Teresa recomenda-lhe tão vivamente a oração, tomando por “intercessores a bendita Mãe de Deus e todos os santos, para que venham lutar junto a si” (Primeiras Moradas, 12).

De fato, Deus deseja a nossa resposta de amor. A oração íntima, nesse sentido, é o meio de que dispomos para entrarmos em diálogo com Aquele que sabemos que nos ama. Oração é diálogo de amor e amizade. Com efeito, quem se mostra generoso nessa prática vai, aos poucos, adquirindo virtudes e desenvolvendo afetos semelhantes aos do Amado, até finalmente adentrar nas Segundas Moradas, ou seja, naquele estado em que “as pessoas já começaram a ter oração e entendem quanto lhes importa não ficar nas primeiras salas” (Segundas Moradas, 2).

O maior empecilho para uma alma nessa morada é a tibieza, a falta de firmeza nos propósitos, que a faz abandonar a oração a fim de voltar aos divertimentos de outrora. Para conseguir se estabelecer dentro do castelo, então, recomenda-se a Comunhão eucarística diária e uma intensa ação de graças. No contato com a Eucaristia, a alma consegue conectar-se melhor com a presença de Jesus em seu íntimo, de modo que a oração se desenvolve mais facilmente. Comungar Cristo ressuscitado nos leva a amá-lo e a preparar o nosso coração para Aquele que vem, como indica o livro Mensis Eucharisticus, um ótimo auxílio para a ação de graças.

É claro que essa vida de oração não será sem esforço. Nas Segundas Moradas, avisa Santa Teresa, a alma terá de se ver com o diabo, que “convocará todo o inferno para obrigá-la a sair do castelo” (Segundas Moradas, 5). Ela diz assim:

Terrível é a guerra que aqui fazem, de mil maneiras, os demônios. Os tormentos são maiores que na sala anterior, onde a alma estava surda e muda, ouvia muito pouco e quase não resistia, como quem perdeu em parte a esperança de vencer. Nesta segunda morada, o intelecto está mais vivo e as faculdades são mais hábeis. Os golpes e descargas de artilharia são de tal modo estrondosos, que não podem deixar de ser ouvidos. Os demônios põem-se a representar os prazeres mundanos — que são as cobras — como sendo quase eternos. Relembram os amigos e parentes da estima em que é tida a pessoa por toda parte. Sugerem mil outras dificuldades imaginárias, inclusive a saúde, comprometida pela penitência. É que sempre, nesta morada, começam a aparecer os desejos de fazer alguma penitência (Segundas Moradas, 3).

A vida de oração é, portanto, um combate espiritual. A alma precisa enfrentar tudo e todos para falar com Deus; “aconteça o que acontecer, sofra-se o que se sofrer, murmure quem murmurar, mesmo que não se tenha força para prosseguir, mesmo que se morra no caminho, não se suporte os padecimentos que nele há, ainda que o mundo venha abaixo”, insiste Santa Teresa, a alma não pode deixar de rezar nunca (Caminho de Perfeição, XXI). Desse modo, quem não estiver disposto a lutar radicalmente jamais passará para as altas moradas da santidade, pois, como diz Nosso Senhor, “o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam” (Mt 11, 12). Não há outro caminho.

Santa Teresa é bastante enfática na necessidade da oração porque é por meio da intimidade divina que o homem adquire a força para vencer o inimigo e praticar as grandes obras de caridade. Jesus não estava brincando quando disse aos Apóstolos: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5). Esse “nada” é o mais radical que existe. A santidade não procede de um esforço humano, mas do contato com a Trindade Santíssima que, como fogo que aquece o ferro até torná-lo incandescente, transforma a alma humana, infundindo-lhe grandes virtudes e ardente devoção. O único esforço que o homem precisa fazer, nesse sentido, é o de manter-se em constante diálogo com o Senhor, pois é Ele que realiza em nós o “querer e o executar” (Fl 2, 13). Ele ordenará nossas paixões ou afetos, inclinando-os para a bem-aventurança eterna (cf. Catecismo, n. 1762).

Finalmente, nas Terceiras Moradas, a alma é chamada a viver uma intensa obra de apostolado, doando-se integralmente pela salvação das almas. Para isso, ela precisa viver o período da purificação ativa, isto é, aqueles atos de renúncia praticados a fim de conformar-se à vontade de Deus. Trata-se de matar o homem velho para que nasça o homem novo. Essa entrega abre caminho para a chamada purificação passiva, que é o acolhimento generoso das provações e contrariedades que o Senhor envia com o propósito de ensinar o coração do homem a amar de verdade. Assim a alma começa a praticar todas as suas obras na presença de Deus, levando uma vida de autêntica contemplação.

Sem essa entrega, porém, o destino dessa alma será o mesmo de Marta: agitar-se com as panelas enquanto sua irmã ouve de bom grado os ensinamentos de Jesus!

ENGENHARIA DA SANTIDADE - PADRE PAULO RICARDO



Artigo Visto: 38



Total Visitas Únicas: 530.303
Visitas Únicas Hoje: 53
Usuários Online: 31